O suíço Jean-Paul Gaillard garante que criou as famosas cápsulas de café que transformaram a marca da Nestlé em uma potência. Agora, se torna rival da companhia em uma batalha bilionária
Por Crislaine Coscarelli
Nos últimos meses, uma guerra vem sendo travada pelo valioso mercado europeu de cápsulas de café, que movimenta cerca de US$ 17 bilhões anuais. De um lado está a gigante suíça Nestlé, que inaugurou esse segmento em 1986 com as já famosas máquinas Nespresso.
Do outro, despontam a americana Sara Lee e a também suíça Ethical Coffee, que, recentemente, colocaram no mercado produtos similares. Por coincidência, eles cabem perfeitamente nas máquinas da Nespresso. Um outro detalhe, no entanto, dá um aroma especial a essa disputa: o sócio e presidente da Ethical Coffee é Jean-Paul Gaillard, o criador das cápsulas originais.
Ele dirigiu a Nespresso por uma década e agora incomoda os ex-patrões com uma versão da mina de ouro da Nestlé. Com seu monopólio colocado em xeque, a corporação suíça apelou à Justiça.
“Se a Nestlé ganhar essa causa eu sou Jesus Cristo!”, diz Gaillard à DINHEIRO de seu escritório em Fribourg (Suíça), com seu estilo provocador e superlativo. Segundo ele, seu produto está longe de ser uma cópia.
“Eu criei as cápsulas usadas hoje pela Nespresso e agora encontrei uma forma de melhorá-las sem quebrar a patente. É uma evolução do produto”, afirma. A Nespresso rebate. “Nós usamos a ciência para ficar à frente da concorrência. Então, quando nossa inovação é violada, defendemos os nossos direitos”, diz Stefan Nilsson, diretor da Nespresso para a América Latina. Por enquanto, a distância que separa a Nestlé dos concorrentes em participação de mercado é abissal.
Em uma década ela vendeu 20 bilhões de cápsulas, ante 25 milhões de unidades comercializadas pela Ethical Coffee em três meses. Com o suporte da rede francesa de supermercados Casino, sócia do Pão de Açúcar no Brasil, e um discurso ecológico (suas cápsulas são biodegradáveis), Gaillard espera crescer de forma exponencial.
US$ 17 bilhões é o valor anual do mercado de cápsulas de café
A história do empresário com a Nestlé começou por volta de 1970. Especialista em gestão de negócios, ele trabalhava no instituto de pesquisas Batelle quando desenvolveu as primeiras cápsulas com grãos de café.
O produto chamou a atenção da direção da Nestlé, que comprou os direitos e registrou a primeira patente em 1976. A comercialização, porém, só começou dez anos depois, quando Gaillard foi contratado para liderar a divisão Nespresso. “Se dependesse da Nestlé, a história teria sido encerrada em 1988.
Disse que a forma como o negócio estava sendo conduzido estava errada. Se me dessem autonomia, em dois anos, a Nespresso estaria dando lucro.” Ele cumpriu o que prometeu. Tirou a divisão do vermelho ao posicionar as máquinas como um produto de luxo. Em 1997, no entanto, Gaillard deixou a companhia. “A Nestlé é uma ótima empresa, mas eu precisava de mais desafios.”
Depois de uma década trabalhando em outras empresas do setor de alimentos, como a Häagen-Dazs, Gaillard decidiu trilhar carreira solo. Em 2007, investiu cerca de US$ 2,5 milhões para realizar pesquisas e chegar ao modelo atual da Ethical Coffee. “Usei minhas economias para investir em um produto com forte apelo ambiental.
O mundo mudou, hoje eu não faria nada que não fosse sustentável”, diz ele, alfinetando a concorrente Nespresso cujas cápsulas são produzidas em plástico – um derivado do petróleo. E Gaillard não está sozinho nessa briga com a Nestlé. Em abril, a americana Sara Lee ingressou no nicho de cápsulas de café com a marca L'Or. “Já vendemos cerca de 30 milhões de cápsulas”, conta Ernesto Duran, porta-voz da subsidiária holandesa da Sara Lee.
Assim como Gaillard, Duran “jura de pés juntos” que não se trata de cópia da arquirrival. Na tentativa de blindar seu produto, a Nestlé registrou 1,7 mil patentes relacionadas ao sistema Nes-presso. Isso inclui cada peça de sua máquina. Agora, caberá à Justiça dizer quem tem razão.